sexta-feira, 23 de junho de 2017

Marta e Maria e as correrias da obra

Cristo em Casa de Marta e Maria. 1578, de Tintoretto.Dim. 170 X 145 cm. Óleo sobre tela. Pinacoteca , Munique
Lucas 10.38-42

Correria significa ato ou efeito de correr, corre-corre, grande pressa... e por aí vai. Os obreiros da Casa do Senhor sabem definir a correria bem melhor que o dicionário. Ensaios, apresentações, confecção de roupas, afinação de instrumentos, evento, agenda, congressos... um obreiro sabe o quanto essas coisas requer muita correria do humilde servo do Senhor.

No livro "Nas garras da Graça", o ilustríssimo Max Lucado nos conta de forma ímpar um assalto a banco que fez Robertson. Um ladrão de banco por demais apressado. E por isso, atrapalhado. A pressa é perigosa quando se quer fazer algo importante. Robertons fez um pedido de empréstimo num banco e voltou algumas horas depois para roubar ali. Entrou com um bilhete de assalto, uma arma e as chaves do carro que pegou emprestado de um amigo. Saiu correndo do banco com o saco de dinheiro, com a arma e com a chave do carro... isso mesmo, esquecera o bilhete. Correu de volta para pegar o bilhete que poderia incriminá-lo e quando chegou no carro percebeu que agora havia esquecido a chave no banco. Teve que fugir correndo mesmo. Sua correria o fez esquecer o bilhete e agora a chave... Sim, ele foi capturado. Seu próprio amigo ligou para a polícia, pois o ladrão atrapalhado disse que o carro tinha sido roubado... Sua correria desenfreada lhe rendeu o título de ladrão atrapalhado.

Convido a você, querido(a) leitor(a), a entrar numa casa onde também teve uma correria impressionante. É certo que foi por uma causa mais nobre que a do ladrão que contei acima. A correria nessa casa tinha o objetivo de servir ao Senhor Jesus. Antes de começarmos, repare que os quatro versículos dessa história de Marta podem ser divididos em três cenas, e cada uma com uma importante verdade. Veja:


  • 1ª Cena:



Marta recebe o Senhor Jesus em sua casa. Seu nome significa Senhora do lar, dona de casa, cuidadosa, prestativa. Pode muito ser também uma irmã-mãe, uma vez que a casa em questão pertencia a ela e nada é mencionado sobre seus pais.

Juntamente com sua irmã, Marta se assenta aos pés do Senhor e escuta a sua palavra. Note, querido irmão, que a expressão "Maria também sentou-se" indica que as duas estavam inicialmente sentadas. Marta primeiro e depois sua irmã se sentaram para ouvir as palavras do Senhor.

Marta ficou um certo tempo ali sentada, ouvindo. Depois ficou servindo e ouvindo. Até que se distraiu com os afazeres da importante obra de servir o Senhor e parou de ouvir. Ela queria fazer algo por ele. Algo natural, pois ela era a anfitriã. Mas, o texto mostra que era o Senhor que queria fazer algo por ela, ensiná-la. Nos muitos afazeres ela se distraiu e parou de ouvir. Triste coisa para o admirador de Cristo é querer agradá-lo sem ouvi-lo.

Aqui aprendemos uma primeira verdade: NEM TODOS QUE RECEBEM O SENHOR JESUS EM SEUS LARES, CONTINUAM ASSENTADOS AOS SEUS PÉS OUVINDO SUA PALAVRA!

Os muitos afazeres da obra tendem a distrair os humildes servos do Senhor. Nunca podemos esquecer de que Ele não precisa de nós, somos nós que precisamos dEle. A grande obra da redenção foi Ele quem fez. Precisamos ouvir sua palavra. Até podemos tentar fazer algo por Ele, mas antes e durante, devemos ficar atentos à sua voz. Quando diminuímos o volume e intensidade de sua palavra em nossos corações, ficamos distraídos com os muitos afazeres. Isso é perigoso. Que o Santo Espírito nos alerte quanto sobre isso. 


  • 2ª Cena



Marta agora está distraída em muitos serviços. Sua correria a leva a indagar o Mestre para que sua irmã a ajude. Mais que fazer esse aflito pedido, ela o questiona se ele não se importa em vê-la trabalhando tanto enquanto que sua irmã está ali, 'parada'. Sua distração lhe pregou uma peça. Ela se analisou como alguém que estava fazendo algo útil ao Mestre que estava ali em sua casa.

Nesta segunda cena, vemos nitidamente uma outra verdade que devemos considerar: NÃO QUEIRA QUE SEU IRMÃO SIRVA AO SENHOR DO MESMO JEITO QUE VOCÊ.

Lembre-se que a repreensão do Senhor não veio quando Marta se levantou para servir. Na verdade, a palavra diz que ela  se distraiu e assim o Senhor a repreendeu quando ela quis que sua irmã o servisse do mesmo jeito que ela. Irmãos que já estão distraídos é que pensam desse jeito. Esses distraídos querem se comparar com os outros, julgar os outros, estão servindo e preocupados com outros irmãos que estão, aparentemente, parados. Verdade é que deixaram de ouvir a palavra e se distraíram com os afazeres da obra.


  • 3ª Cena



Antes de responder a pergunta e sugestão de Marta, o Senhor Jesus a descreve. Aquela casa precisava dEle. Marta, a senhora daquela casa precisava dEle. Parece que ela não se deu conta disso. Tudo que ela queria fazer era servi-lo... tudo que Jesus queria era curá-la. Ela ainda não estava convencida de que precisava de algo. Agia como se fosse ela quem pudesse oferecer algo.

Talvez por isso, o Senhor Jesus tenha sido bem direto em descrevê-la: "Marta, Marta, estás ansiosa e fadigada com muitas coisas..."

Aprendemos algo notório aqui: JESUS DESCREVE EXATAMENTE COMO ESTAMOS.

Analisando a cena, podemos descrever Marta com vários adjetivos. Jesus, acertadamente, usa apenas dois. Ela estava ansiosa e fadigada. Isso é notório porque em nossos momentos de cansaço, podemos nos descrever com vários adjetivos... podemos ser a Marta agoniada, presunçosa, fraca, reclamona... e  por aí vai... Nesta cena, o nosso Mestre conhece bem aquela anfitriã. Ela estava apenas ansiosa e cansada. Não que isso seja pouco. Mas quem já esteve cansado pelos muitos afazeres da obra sabe que um turbilhão de adjetivos vem quando não conseguimos fazer o que pretendíamos fazer. É comum ouvir de alguém que organizou um evento "nunca mais eu faço outro evento", e no próximo, lá está o irmão organizando outro...

Repare nisso também... Jesus não disse que Marta era ansiosa e fadigada. Ele disse apenas que ela estava ansiosa e fadigada. Ela não era uma pessoa assim. Ela estava sendo uma pessoa assim. Isso é por demais notório, uma vez que as Martas que estão com várias tarefas na obra do Senhor, as vezes, se consideram como uma pessoa ansiosa... Marta não era, Marta estava!

Marta estava ansiosa e fadigada. A ansiedade pode ser fruto de uma preocupação. E se for moderada, não é algo tão ruim. Mas quando esse sentimento toma conta de uma pessoa deixando-a em estado fadigado... então, há que ser feito algo. Jesus quis fazer algo para tratar isso. E se o Senhor quis tratar a ansiedade que é acompanhada com a sensação de cansaço, nos sinaliza que essa soma pode nos fazer muito mal.

Muitos humildes servos do Senhor se empenham em fazer algo em prol da obra de Deus. Querem ser útil de alguma forma. Retribuir tamanha obra que seu Senhor fez por ele. Mas quando esse fazer muito passa a causar ansiedade acompanhada com cansaço aí já passou da hora de voltarmos a se assentar aos seus pés e ouvir o que Ele tem a nos dizer.

Pense nisso...

E o que pode ser usado para curar a ansiedade e fadiga de Marta?
A resposta do Senhor aponta para isso. Sua palavra é a cura para qualquer ansiedade e fadiga. Pedro sintetizou bem isso quando disse "para onde irei se só tu tens as palavras de vida eterna" (Jo 6.68). Vida eterna não combina com ansiedade, fadiga, pressa, cansaço ou situações e sentimentos semelhantes a esses. Aquele que tinha as palavras de vida eterna estava ali, na casa de Marta, tão perto. Este mesmo cuidadoso Senhor pode estar tão próximo em nossos momentos de ansiedade e cansaço!

Quando Ele diz "ela escolheu a melhor parte", está se referindo à sua própria palavra. Oh meu querido irmão e irmã... que o Santo Espírito nos ensine isso... esta é de fato a melhor parte. Tudo que se pode fazer na obra, seja em atividades e cronogramas, ensaios e apresentações... toda a correria da obra tem que ser dado pausas e mais pausas para nos assentarmos e ouvirmos a palavra deste atento Senhor. Ele continua entrando na intimidade de famílias e lares... precisamos não apenas nos assentarmos para ouvi-lo... precisamos continuarmos e permanecermos assentados ouvindo. Sua palavra nos trata e cura. Trata nossa visão apontadora, tirando-a de nosso irmão que faz ou não faz algo, e a direciona para a trave de nossos próprios olhos. Só Ele nos convence de que precisamos de tratamento. Sua palavra ainda nos descreve como ninguém. Exatamente da forma que estamos, sem mais (para não ser acusação), nem menos (para não ser permissivo). Descreve para curar!

Aceitaria uma sugestão deste irmão de obra? Pare tudo agora... dê uma pausa... pare e se abaixe até a altura dos pés do Senhor Jesus... e escute o que Ele está te dizendo. Escute sua palavra. E permaneça sempre assim, humildemente reclinado e ouvindo atentamente suas palavras de vida eterna.


Que possamos ouvir atentamente a palavra daquele que um dia entrou na casa de Marta e Maria, e continua querendo entrar em outras tantas casas onde se deseja ouvir sua voz!

Paz do Senhor!
Bp Erisvaldo Pinheiro Lima
Palavra ministrada em 23 de Junho de 2017 na Comunidade Evangélica Arca da Aliança.